(...) with the exception of Hamlet and Julius Caesar no play has been more liberally annotated than The Tempest. (...) Unquestionably, a large portion of this attention from editors and critics must be owing to the enduring charm of the Play itself, dominated as it is by two such characters as Prospero and Ariel, whose names have become almost the symbols of an overruling, forgiving wisdom, and of an “embodied joy whose race has just begun”. There is yet a third character that shares with these two my profound wonder, and, as a work of art, my admiration. ... Merely as a work of art, Caliban takes precedence, I think, even of Ariel.[1]
Horace Howard Furness
Esta citação foi tirada do prefácio da Variorum Edition of Shakespeare: The Tempest, escrita por Horace Howard Furness e publicada pela primeira vez em 1892. Já havia naquela época uma enorme quantidade de trabalhos sobre essa peça de William Shakespeare. Na verdade, todas as peças do dramaturgo inglês tem sido lidas e relidas exaustivamente. Muitas versões, muitas leituras ... A Tempestade não é uma exceção. Suas personagens tornaram-se paradigmáticas e têm ganhado força extraordinária, especialmente Caliban, descrito na apresentação da Dramatis Personae como “um escravo selvagem e deformado”. Caliban se tornou o mais freqüente símbolo sócio-político shakesperiano desde os anos cinqüenta, diferentemente do passado quando essa personagem era valorizada “meramente como um trabalho de arte”. A metáfora d’A Tempestade tem adquirido diferentes interpretações de acordo com o contexto político e histórico dos escritores e críticos que lêem a peça. Ela tem se tornado, nas mãos deles, uma concha do mar, pegando emprestado a imagem usada por Inga-Stina Ewbank para mostrar a qualidade inerente à peça de ser reproduzida e apropriada de várias e diferentes formas, e também de tornar-se uma inspiração para outros trabalhos em diversos países e variadas línguas. Como uma concha levada à orelha, “so much what you hear in [The Tempest] - be it Shakespeare’s autobiography or a colonial discourse - is yourself”[2] (Shakespeare Survey, 1991:109).
Tendo em vista que há muitos estudos, releituras e apropriações d’A Tempestade, principalmente aquelas advindas de ex-colônias, a reflexão sobre esse fenômeno - se se pode usar tal termo - sempre se faz necessária. Pretendo, então, analisar a leitura que é feita de Caliban - o outro nessa peça shakespeariana -, principalmente pelo escritor caribenho George Lamming em The Pleasures of Exile. Como a metáfora da concha levada ao ouvido ilustra, o lugar de enunciação do romancista caribenho é extremamente relevante para a compreensão do uso que ele faz da peça de Shakespeare. Com The Pleasures of Exile, Lamming enfatiza a importância d’A Tempestade para a situação colonial e pós-colonial.
Quando se pensa A Tempestade juntamente com a questão do colonialismo, a primeira pergunta que vem à mente é se a peça seria cúmplice da empreitada colonial ou se seria um exemplo de anti-colonialismo. Esta é uma questão que muitos críticos têm tentado responder. Dentre as diferentes interpretações da peça, em minha leitura concordo com a formulação de Francis Barker e Peter Hulme (1985) sobre a existência de duas peças; uma dentro da outra, isto é, existem a peça de Próspero e A Tempestade. A primeira é exclusivamente colonialista, sendo, então, representante explícito de um discurso europeu etnocêntrico. A Tempestade, por outro lado, principalmente por meio da tensão que provoca - pelo menos até certo ponto com as notáveis repostas de Caliban - revela sua ambigüidade. Dessa forma, é possível concluir que a peça shakesperiana pode ser usada ou para perpetuar idéias coloniais do Ocidente ou para desconstrui-las. O texto é aberto a ambas possibilidades, e a ambigüidade que gera pode ser resolvida somente fora da abrangência da peça. O lugar de onde o leitor ler/fala, por exemplo, é um fator determinante que irá influenciar a escolha do ângulo na qual a peça será focalizada.
Uma edição da peça, a Arden Shakespeare, por exemplo, mostra a figura de um homem selvagem na capa, sugerindo, dessa forma, que Shakespeare concebeu seu Caliban, o outro, como um homem selvagem. É importante notar que no folclore medieval os homens selvagens são descritos como homens-bestas, que vivem como excluídos, como animais, nus, ou vestindo-se com peles ou plantas, que se escondiam nas florestas e dormiam em cavernas. Esses homens selvagens eram também descritos como cabeludos, com aparência de gorilas, moralmente depravados e destituídos de uma língua (Kermode, 1994: xxxix, Vaughans, 1993:62-71).
Embora a edição da Arden Shakespeare seja uma das melhores disponíveis, é importante ressaltar que além da capa, na introdução seu editor Frank Kermode, revela pressuposições eurocêntricas sobre Caliban. Como fica claro, ele vê Caliban como um homem selvagem, localizando a sua ilha no Velho Mundo. Talvez, como Eric Cheyfitz (1991) aponta, a interpretação que Kermode faz d’A Tempestade implicitamente quer preservar a idéia da peça como “um trabalho de arte” universal e transcendente, que ele pensa seria destruído se localizássemos a ilha de Shakespeare no Novo Mundo. A leitura que Kermode nos fornece está, obviamente, influenciada pelo seu locus de enunciação.
George Lamming, por outro lado, lê a peça como um escritor caribenho, cuja educação foi baseada em modelos britânicos, mas que desenvolveu um consciência peculiar a respeito da história do passado colonial do Caribe e sua situação pós-colonial no presente. Nascido em Barbados em 1927, muda-se para Trinidade para trabalhar como professor em 1946, e em 1950 emigra para a Inglaterra. Seu primeiro romance, In the Castle of My Skin, é publicado em 1953 seguido por três outros romances. Em 1960, publica sua obra seminal The Pleasures of Exile. Mais de dez anos se passam até publicar outros dois romances, Water with Berries (1971) e Natives of My Person (1972) - ambos inspirados n’A Tempestade, embora o primeiro mais. A obra de Lamming pespassa o processo de descolonização de seu país, e é permeada por uma preocupação com as Antilhas e os antilhanos.
Sua escrita, em The Pleasures of Exile, é parcialmente autobiográfica, proporcionando reflexões sobre o papel cultural do escritor que se identifica com Caliban e, até certo ponto, com Próspero também. Segundo Lamming, o escritor das ex-colônias, uma vez deslocado, deve ser capaz de usar sua experiência de sujeito colonial para negociar sua relação com a cultura metropolitana. Como consequência dessa negociação, o Caliban pós-colonial, ou descendente de Caliban, será capaz de inscrever-se de uma forma efetiva, tentando, então, promover mudanças em Próspero. Entrará no reino do europeu e usará sua arma, a escrita, com a promessa de descolonizar as mentes do colonizador e do colonizado - se não no presente, no futuro. O Caliban contemporâneo superou o discurso oral que Próspero lhe ensinou, pois na atualidade ele é, também, um produtor do discurso escrito, isto é, ele é capaz de escrever sua própria versão de uma história de opressão. Como Lamming diz em The Pleasures of Exile, “Caliban is here to stay” (1995:63)[3], ou seja, agora que ele lançou mão de, talvez, um dos mais poderosos meios de luta - a escrita - não existe retorno para sua antiga condição de subserviência. Ao apropriar-se da peça de Shakespeare, ou qualquer outro texto canônico, o Caliban pós-colonial tem significado, como o antropófago de Oswald de Andrade, não uma aceitação passiva da obra do europeu, mas sim crítica, mostrando resistência ao poder cultural dominante.
Além de poder ser um escritor, quem exatamente é Caliban? Para Lamming (1995), Caliban é o escravo negro que foi introduzido no Caribe e que também tem traços do indígena caribenho. Esta concepção de Caliban é muito freqüente em releituras africanas e caribenhas da peça. Para a crítica indiana Ania Loomba, preto é a cor política de Caliban, a cor do excluído em qualquer lugar (1993:143). Depois dos anos cinqüenta, Caliban será identificado como colonizado, o oprimido, enquanto Próspero incorporará o colonizador, o opressor. A leitura/releitura d’A Tempestade feita por escritores das ex-colônias consiste basicamente nessa dicotomia: Próspero-colonizador, Caliban-colonizado. Essa dicotomia está presente em uma variedade de trabalhos literários e sociológicos que usam essas personagens para refletir sobre o colonial e pós-colonial.
Um dos estudos mais relevantes nessa linha é The Pleasures of Exile, de Lamming, em que Caliban é uma “possibility of spirit” (1995:107), e como uma possibilidade - o que pode significar um revolucionário em potencial - o Caliban pós-colonial pode escolher, ao invéz de se embriagar com a cultura, a religião e a língua herdadas do colonizador, se embriagar com sua própria cultura. Escritores das ex-colônias, como Lamming, estão prontos para mostra que agora Caliban é livre e, como consequência, ele ganha voz, a qual urge ser ouvida. Então, passa a ser impossível para os antigos senhores negarem a assinatura dos seus ex-escravos. Caliban, disfarçado nas figuras de caribenhos, latino-americanos, africanos, em suma, qualquer minoria subjugada, aprendeu não somente a praguejar, mas também a inscrever-se. A inscrição de Caliban no mundo contemporâneo veio para ficar.
É valioso lembrar que escritores do Caribe têm dado uma contribuição pioneira às novas leituras d’A Tempestade do ponto de vista colonial. Aime Césaire, Roberto Fernández Retamar, Edward Brathwaite e Lamming, usaram a peça de Shakespeare sem se prenderem muito ao enredo, dando a Caliban vida própria. Como Edward Said coloca, para Retamar, Caliban “is the main symbol of hybridity, with his strange and unpredictable mixture of attributes”[4]. Said também ressalta que, “Each new American reinscription of The Tempest is therefore a local version of the old grand story, invigorated and inflected by the pressures of an unfolding political and cultural history”[5] (1994:257).
Como cito acima, Retamar chama atenção para o fato de que Caliban é o principal símbolo de hibridismo. Lamming parece estar bem consciente do caráter híbrido de Caliban e de seus descendentes, já que logo no início de The Pleasures of Exile, quando se identifica com a personagem shakespeariana, ele ressalta que, também, é um descendente de Próspero, tendo, então, que negociar essa herança. É importante manter em mente a noção de hibridismo, uma vez que ela é essencial para se evitar uma visão essencialista de Caliban e de Próspero. Segundo às colocações de Lamming, nem um nem outro serão os mesmos depois de se encontrarem, ou melhor, se confrontarem.
O significado d’A Tempestade para a era de descolonização é indiscutível[6]. Dos anos cinqüenta aos setenta muitas colônias estavam conseguindo independência, e essa peça shakesperiana começou a ser usada como aliada das reivindicações dos povos oprimidos, principalmente na África e no Caribe. É interessante notar que intelectuais usavam Shakespeare, cujo nome é identificado com a própria cultura canônica ocidental, para dar voz a seus sentimentos anti-colonialistas. N’A Tempestade, escritores encontraram inspiração para formular idéias sobre sua própria condição, e Caliban, um nome que antes fora usado pejorativamente pelo europeus, começou a ser usado com orgulho pelos não-europeus. A reivindicação de Caliban “Esta ilha é minha” (I. ii.). e a questão de ter de usar a língua do colonizador - “Tu me ensinaste a falar e meu único proveito foi aprender a amaldiçoar. Que a peste vermelha te carregue por teres me ensinado a tua língua!” (I. ii.). - tornaram-se extremamente significativas para os povos colonizados. O nome Caliban foi apropriado e intelectuais fizeram uso especial dele para alcançar seus objetivos. A Tempestade e o outro do europeu foram apropriados de uma forma transgressiva[7], ou como uma “blasphemy”, segundo Lamming (1994:9).
Embora a apropriação da peça, e principalmente de Caliban, possa ter parecido uma blasfêmia para os anos sessenta, na atualidade já não o é, pois muitas leituras e muitas outras apropriações pós-coloniais da peça tornaram-se difundidas. Além disso, como já coloquei, existem duas peças: a peça de Próspero e A Tempestade, apesar de por um longo tempo só a primeira tenha sido considerada. Devido às suas condições, intelectuais do chamado Terceiro Mundo começaram a ler a peça de Shakespeare de uma maneira diferente, tirando vantagem das falas de Caliban para formular uma interpretação alternativa. Como também já ressaltei, A Tempestade está imersa em ambigüidades relativas ao outro. A força de Caliban, como da própria peça, está nessas ambigüidades. Hoje em dia, graças a relevância das leituras feitas por escritores e intelectuais das ex-colônias, pode-se dizer que há uma terceira peça: a de Caliban. Nesta, Caliban é agente e tenta conciliar-se com a história para poder mudá-la.
A Tempestade começa com usurpação e exílio. Shakespeare parece ter previsto as eras coloniais e pós-coloniais - a peça foi escrita antes das primeiras colônias inglesas terem sido estabelecidas. Da mesma forma, Lamming, quando usa A Tempestade em The Pleasures of Exile, prova ter ido além do que era comum para a época. Sua obra seminal mostrou o caminho para muitos outros escritores que se sensibilizaram com Caliban e suas reivindicações no texto shakespeariano.
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[1] (...) com a exceção de Hamlet e Júlio César, nenhuma peça tem sido mais abundantemente comentada que A Tempestade. (...) Inquestionavelmente, uma grande parte dessa atenção dos editores e críticos deve ser devido ao charme duradouro da peça, dominada como ela é por tais personagens, como Próspero e Ariel, cujos nomes têm se tornado símbolos de uma sabedoria dominante e magnânima, e de uma “alegria corporificada cujo curso apenas começou...” Existe, ainda, uma terceira personagem que reparte com estes dois meu profundo respeito, e, como um trabalho de arte, minha admiração. ... Meramente como um trabalho de arte, Caliban precede, eu acho, até Ariel. (Tradução minha).
[2] “muito do que você ouve em [A Tempestade] - seja isso a autobiografia de Shakespeare ou um discurso colonial - é você mesmo” (Shakespeare Survey, 1991:109, tradução minha).
[3] veio para ficar. (Tradução minha).
[4] Caliban é o principal símbolo de hibridismo, com sua estranha e imprevisível mistura de atributos. (Tradução minha).
[5] Cada nova reinscrição d’A Tempestade é então uma versão local da estória magnífica e velha, invigorada e moldada pelas pressões de uma história política e cultural que se revela. (Tradução minha).
[6]Cf. Rob NIXON “Caribbean and African Appropriations of The Tempest”.
[7] Ibidem.